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domingo, 6 de novembro de 2011

A crise tem ideias perigosas


Gustavo Cardoso, Paulo Pena, Ana Catarina Santos, João Caraça e Catarina Portas


Especialistas debatem presente e futuro de Portugal no ISCTE


Perigo: Sermos mais consumistas e menos cidadãos, esquecermos que o capitalismo não precisa da democracia, vivermos sem um governo e não termos imaginação.

Estas são algumas das «Ideias perigosas sobre uma crise» debatidas ontem, no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). O encontro inspirou-se no livro lançado há um ano «Ideias perigosas para Portugal» e contou com as presenças dos autores João Caraça, Catarina Portas, Gustavo Cardoso, Ana Catarina Santos, Sandro Mendonça e do jornalista Paulo Pena.

A ideia que Catarina Portas apresenta no livro é que “o nosso atraso pode ser o nosso avanço”. Segundo a jornalista e empresária, em momentos de crise económica e financeira como esta que atravessamos, “o que as pessoas procuram é voltar a uma economia real, uma economia que entendam”. No entanto, nos últimos anos, “as pessoas passaram a importar-se mais em serem consumidoras do que cidadãs”.

Para Catarina Portas a responsabilidade da crise “é nossa”, “deixámos isto acontecer” porque nos deixámos levar pela “irracionalidade”.

Enquanto empresária, refere que na área do comércio há muita coisa errada e “todos os dias estamos a matar a economia portuguesa”. As marcas portuguesas “têm cada vez menos clientes” porque “cada vez está mais concentrada a distribuição e comércio”. E exemplifica: “Neste momento, o Continente e o Pingo Doce controlam 70 por cento da distribuição alimentar e continuam a crescer para outros nichos de mercado”.

Porque “tudo o que cresce demasiado é perigoso”, Catarina Portas considera fundamental “sabermos a quem damos o nosso dinheiro”. “Um cidadão pode ser cidadão através do seu consumo”, sublinha.
Ana Catarina Santos, João Caraça e Catarina Portas
Ana Catarina Santos, João Caraça e Catarina Portas
Sem ‘pai’ Estado
“A perigosidade tem que ver com o poder contra o qual se levanta”, afirma João Caraça. Para o director do serviço de ciência da Fundação Gulbenkian, a ideia do referendo nacional grego à assistência externa “foi uma ideia perigosa porque atrapalhou e levantou-se contra o poder daqueles dois países que neste momento estão a tomar decisões sobre a Europa, a França e a Alemanha”.

O perigo surge, segundo João Caraça, quando nos esquecemos que “o capitalismo não precisa da democracia”. “Neste momento histórico importante, é esta uma das grandes tensões que estamos a viver e que temos de estar conscientes dela”, avisa.

A ausência de governo é outra das ideias perigosa para Portugal. Quem a propõe no livro «Ideias perigosas para Portugal» é Ana Catarina Santos.

O que, na realidade, a jornalista da TSF quer transmitir é que “temos de depender mais de nós do que no ‘pai’ Estado”. Para isto, é fundamental que exista “liberdade individual”, que cada um de nós tome livres iniciativas.

“Todos, com um pequeno contributo, podemos melhorar aquela que é a nossa rede social”, garante.

Indignados na rua

A indignação é pouco construtiva ou pode levar a um desenvolvimento político actuante? É uma das questões que actualmente se impõe.
Gustavo Cardoso
Gustavo Cardoso
De acordo com o sociólogo Gustavo Cardoso, “o Estado, na Europa, está fraco, os bancos estão débeis e nós não sabemos como estamos”.

Os indignados, populações de vários países que manifestaram o seu mal-estar, “são apenas a concretização na rua de algo que já sabíamos há mais de uma década, que coincide com a entrada do euro”. Isto refere-se aos últimos 10 anos em que nos “tornámos hiper consumistas, hiper cépticos em relação ao poder político e indignados”.

De acordo com o professor do ISCTE“somos incapazes de perceber para onde vamos” porque actualmente“não temos alternativas em cima da mesa”. “Falta-nos imaginação inclusive, para olhar para o passado e encontrar algumas coisas”.

O que o especialista quer dizer é que apesar de não haver crédito porque deixou de entrar dinheiro, podem ser postas em prática algumas alternativas. “Não tem de haver limites para a criação da moeda, tudo depende de quem é que cria moeda. Até pode ser virtual, depende da confiança que existe para as pessoas a aceitarem”, refere.

Aquilo que Gustavo Cardoso afirma estar em causa é “a incapacidade dos Estados e também das universidades começarem a fazer propostas concretas de coisas que as pessoas podem acreditar ou não. Enquanto não fizermos isso, vamos continuar a ter indignados nas ruas e nas nossas casas”.

Isto pode ainda não ter acontecido porque, como explica o economista Sandro Mendonça, “o capitalismo não gosta muito de concorrência e no mercado das ideias económicas também se nota uma ausência de disparidade de ideias”.

Daí que as Universidades não evoluam. “Os intelectuais por vezes não são nada interessantes, as Academias não são nada interessantes e o debate, por vezes, não passa por aqui nem pelos media”, afirma o também professor no ISCTE.



quinta-feira, 3 de março de 2011

ISCTE e MIT lançam concurso de empreendedorismo tecnológico

                                      



O ISCTE e o Programa MIT Portugal lançaram a segunda edição do concurso de empreendedorismo para projectos de base tecnológica. A Caixa Capital é o parceiro financeiro da iniciativa, operacionalizada também pelo centro  Audax. As candidaturas serão aceites até 15 de Maio, em quatro áreas principais: ciências da vida; sistemas de sustentabilidade energética e transportes; TI e Internet; e produtos e serviços  de base tecnológica.

O projecto vencedor de cada área tem acesso a 100 mil euros de financiamento e habilita-se a ganhar o grande prémio, ou seja poderá pedir apoio até 200 mil euros, numa primeira fase: mais tarde, mediante o cumprimento de um plano de negócios, o valor total do grande prémio pode atingir o milhão de euros.

Depois da primeira edição do concurso ter recebido 96 projectos, o director da iniciativa, Gonçalo Amorim, fez um périplo por várias instituições de ensino portuguesas a promover a segunda edição. O responsável considera que o objectivo principal não é aumentar o número de projectos. Prefere ter projectos mais sólidos e capazes de serem  fáceis de validar no mercado.

Estão habilitados a concorrer ao concurso não só candidatos a empreendedores mas também startups ou spinoffs, com facturação anual abaixo dos 2,5 milhões de euros.

Uma das vantagens reconhecidas pelos concorrentes, segundo o director-executivo do programa MIT Portugal, Miguel Carvalho,  é o “carimbo de qualidade” adquirido, quando as ideias são premiadas. A organização do concurso “promete” um potencial de valorização da empresa ou projectos entre 15 a 20 milhões de euros. Um dos objectivos da iniciativa é facilitar o acesso da empresas ou empreendedores ao ecossistema de capital de risco internacional.

Um dos objectivos da segunda edição passará pelo reforço da interacção com “agentes catalisadores” de investimento internacionais, para consubstanciar melhor os projectos e suportá-los com um discurso mais comercial ou empresarial.

Pode inscreve-se neste link.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Nascemos ou podemo-nos tornar empreendedores?







Genes, ambiente externo, ensino e empreendedorismo – Afinal como nascem os empreendedores?




Durante um bom par de anos discutiu-se com algum fervor no meio académico a resposta à questão: “Nascemos ou podemo-nos tornar empreendedores?”.


Dos vários quadrantes apareceram sugestões e teorias sobre o assunto sem que se gerasse consenso. Até que alguns começaram a defender e a mostrar provas de que a escola pode ter um papel fundamental na formação para o empreendedorismo. Entenda-se empreendedorismo como muito mais do que a criação de uma empresa, inclui também o desenvolvimento de competências que favoreçam o intraempreendedorismo associado à inovação e criatividade em ambiente empresarial. Peter Drucker chegou mesmo a mencionar que o empreendedorismo não é mágico, não é um mistério, não está nos genes, e, como tal, é uma disciplina e pode-se aprender!

Considera-se que o empreendedorismo não depende de algo exclusivamente intrínseco ao ser humano, podendo ser influenciado pelo ambiente e estímulos externos que vão desde os círculos mais restritos da família e amigos até às instituições onde os indivíduos se inserem, e mesmo ao contexto nacional e regional do campo de actuação de cada um (Carvalho, Costa, Dominguinhos, 2010 [1] ).

É hoje ponto assente que o empreendedor “nascerá” com mais facilidade se houver um ambiente que lhe seja favorável. Sendo sublinhada a importância da criação de ecossistemas empreendedores (Carvalho, Costa, Dominguinhos, 2010 [2]) os quais devem incluir infra-estruturas físicas de suporte, mas também capital humano e social, redes e programas curriculares e extra-curriculares que potenciem a criação de empresas, de projectos com valor e a transferência de conhecimento.

Neste contexto, têm surgido diversos programas cujo alvo é a promoção do empreendedorismo. Hoje apresentarei um desses programas denominado por “Graduate Program” este é promovido pela Associação Aprender a Empreender – Associação dos Jovens Empreendedores de Portugal [3] (Junior Achievement Portugal). Esta Associação é a congénere portuguesa da Junior Achievement (JA), criada em 1919, nos E.U.A, a maior e mais antiga organização mundial educativa, sem fins lucrativos. Presente em 124 países, a Junior Achievement contribui para o desenvolvimento da educação empreendedora nos jovens de todo o mundo.

Em Portugal a JA detém parcerias com várias instituições de ensino superior, protocolando a participação de estudantes em programas extracurriculares de promoção do empreendedorismo. Os programas são financiados pelos seus associados que acreditam que a educação é uma importante fonte de riqueza e que investem e promovem a formação, o espírito empresarial e empreendedor nos jovens, concedendo-lhes a oportunidade única de se desenvolverem. O principal objectivo da Junior Achievement Portugal é pois, consciencializar os jovens para a importância de “Aprender a Empreender”. Pretende esta associação, fomentar uma atitude enriquecedora e potenciar a capacidade de se reinventar, através do erro e da aprendizagem, estimulando a auto-confiança para enfrentar novas situações cada vez mais importantes e difíceis, em várias dimensões/áreas como a cidadania, consciência activa, ética, literacia financeira e desenvolvimento da vida profissional. (Carvalho, Costa, Dominguinhos, 2010 [4]).

O Graduate Program, é apoiado e orientado por professores e por tutores voluntários do Banco Millenium BCP e visa fornecer uma formação empreendedora a estudantes do ensino superior. Através da criação, gestão e operacionalização de uma empresa fictícia, os estudantes têm a oportunidade de aprender sobre a estrutura do sistema empresarial. Todos os estudantes do Graduate Program têm a oportunidade de desenvolver aptidões relacionadas com a comunicação, tomada de decisão, organização, negociação e gestão de tempo.

As equipas, constituídas por alunos do ensino universitário e politécnico (ISCTE, UNL, ISEG, UP, IPS-ESCE), são avaliadas por um sumário executivo e por uma apresentação em palco de 4 minutos. Os critérios de avaliação mais relevantes são a aplicabilidade, a inovação, o potencial de mercado e a sustentabilidade da Mini-Empresa. Este projecto, e outros como este, que relatarei em edições futuras, constituem um forte impulso ao desenvolvimento de uma cultura empreendedora de suporte ao “nascimento” de novos empreendedores.

 por Luísa Carvalho
(Doutorada em Gestão, docente na ESCE-IPS)
 

[1] Carvalho, L; Costa, T.; Dominguinhos, P. (2010) "Creating an entrepreneurship ecosystem in higher education", Technology, Education and Development,Austria: I-TECH Education and Publishing (ISBN: 978-953-7619-40-4).
[2] idem